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Histórias de vida viram livro produzido por estudantes do CIEJA Rolando Boldrin
Projeto reúne relatos de idosos que voltaram a estudar e registraram suas trajetórias numa obra coletiva
Publicado em: 12/03/2026 11h26 | Atualizado em: 19/03/2026
A estudante Edvaneuza, Profª Angela e Maria da Mota (Foto: Divulgação/SME)
No Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) Rolando Boldrin, zona leste da capital, aprender também significa revisitar o passado e transformar experiências de vida em conhecimento compartilhado. Estudantes da unidade participaram da produção de um livro de memórias, reunindo relatos pessoais que percorrem infâncias no interior do Brasil, histórias familiares e o caminho de retorno aos estudos.
O projeto começou a ser produzido ao longo de 2025 e reuniu depoimentos de 31 participantes. O processo envolveu entrevistas, gravações e troca constante de mensagens entre os ‘escritores’ e os professores Angela Marques Tamarino e Jorge Luiz Dias de Araújo, idealizadores da atividade. São histórias de estudantes entre 60 e 90 anos, com uma exceção: uma participante mais jovem, de cerca de 45 anos, que pediu para integrar o grupo.
Entre as autoras está Edvaneuza Praxedes da Silva, 85 anos. Ela nasceu em Arapiraca, em Alagoas, e passou a infância em um sítio, onde levava uma vida simples. Arteira, como ela mesma se define, costumava montar a cavalo e subir em árvores. Em um dos relatos, lembra que, ainda criança, seus pais chegaram a cogitar entregá-la para outra família criar, uma realidade comum em muitas regiões do país naquela época.
Outro destaque no livro é Maria São Pedro da Mota, 77, que também encontrou no CIEJA uma oportunidade de retomar um sonho interrompido ainda na juventude: estudou apenas até o quarto ano porque precisou trabalhar cedo. No livro de memórias, revisita a infância em Nazaré das Farinhas, na Bahia, lembrando da separação dos pais e os anos em que cresceu ao lado de sete primos, com quem dividia as brincadeiras e aventuras da infância. Participar da publicação foi uma surpresa. “Quando falaram que a gente ia contar a história de vida, achei que seria apenas um caderno com as nossas histórias. Fiquei lisonjeada”, conta.
A publicação teve tiragem de 50 exemplares e será entregue aos autores em um evento especial na escola, no próximo dia 16, às 18h, com sessão de autógrafos junto aos familiares.
Como tudo surgiu
A professora de Atendimento Educacional Especializado (PAEE), Angela Marques Tamarino, explica que a ideia do livro nasceu da escuta atenta e do desejo de valorizar ainda mais as histórias dos estudantes da unidade. O projeto partiu do Mente Ativa 60+, criado por ela após a pandemia, quando percebeu que muitos estudantes idosos buscavam a escola também como espaço de convivência. O objetivo era fortalecer habilidades cognitivas, como memória, atenção, linguagem e funções executivas, mas o projeto acabou ganhando dimensões maiores.
Segundo ela, a iniciativa de fazer um livro no CIEJA começou a ganhar forma quando as conversas entre os estudantes passaram a revelar narrativas marcantes da infância, juventude e trajetórias familiares. A proposta ganhou força quando o professor Jorge Luiz Dias de Araújo, decidiu se juntar à iniciativa. “Eu conversei com o professor Jorge, que passou a contribuir também com os relatos dos estudantes do período noturno do CIEJA, abraçando a ideia com sensibilidade, compromisso e tornando-se um parceiro importante no projeto. A partir dessa união, o trabalho cresceu e acabou contemplando a escola inteira”, explica. Assim, surgiu o projeto “Entre Olhares e Memórias – Relatos de Vida dos Estudantes 60+ do CIEJA Rolando Boldrin”, que resultou na produção do livro.
Quando as histórias ficaram prontas, os professores apresentaram o texto para cada participante. “Nós líamos a história para cada um deles. Muitos choravam ao ouvir o próprio relato e diziam: ‘é isso mesmo’, e completavam com mais informações. Foi um momento emocionante”, lembra. A revisão final foi realizada pelo professor Edson Azevedo.
A próxima etapa do projeto é ampliar a preservação dessas histórias, levando-as para o acervo do Museu da Pessoa para que fiquem registradas e acessíveis. “É uma forma de eternizar experiências e saberes tão valiosos”, conclui Angela. O livro também se torna um patrimônio cultural e afetivo, que revela o protagonismo dos estudantes 60+, valorizando trajetórias de vida e fortalecendo o sentimento de pertencimento à comunidade escolar.
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