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Pesquisa rende Prêmio Intelectualidade Amefricana a diretora da Rede Municipal 

Estudo de Renata Marques dos Santos Pereira investiga experiências de professoras negras e sua contribuição para práticas pedagógicas antirracistas 

Publicado em: 04/09/2026 12h35 | Atualizado em: 15/09/2026
Mulher negra, de cabelos longos e pretos, usando um vestido vermelho e sorrindo enquanto segura, com as duas mãos, a honraria recebida pelo Prêmio Intelectualidade Amefricana. Ao fundo, aparecem bandeiras de diferentes países e uma bandeira azul.

A pesquisa desenvolvida pela professora e então diretora da EMEI Rachel Mesquita de Salles Oliveira, Renata Marques dos Santos Pereira, foi reconhecida internacionalmente com o Prêmio Intelectualidade Amefricana – Edição Inaugural, concedido pela Rede Internacional de Pedagogia Feminista Negra durante a IV ALARI Conference, realizada em Cali, na Colômbia, em julho de 2026. O estudo, intitulado “Ensinando a transgredir: bell hooks e a experiência de professoras negras na construção de pedagogias feministas negras”, investiga como as experiências de professoras negras podem produzir conhecimentos e práticas pedagógicas capazes de questionar relações de poder presentes no ambiente escolar. 

Com 23 anos de atuação na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, Renata desenvolveu a pesquisa durante o Mestrado Profissional em Educação Escolar da Faculdade de Educação da Unicamp, concluído em 2023. O trabalho foi orientado pela professora Claudia Amoroso Bortolato e está disponível no repositório institucional da universidade. 

A investigação parte das contribuições da intelectual e educadora negra bell hooks para compreender como as experiências de mulheres negras se relacionam com suas práticas pedagógicas. A pesquisa utiliza uma abordagem narrativa e qualitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas e nas memórias de professoras negras, buscando compreender os conhecimentos construídos a partir de suas experiências na escola pública. 

Segundo a pesquisa, essas experiências podem constituir epistemologias pedagógicas, conhecimentos produzidos a partir da teorização do cotidiano vivido das próprias professoras, capazes de contribuir para a construção de práticas educativas que questionem modelos hegemônicos e fortaleçam uma educação antirracista. O estudo também relaciona essas experiências aos princípios de equidade, integralidade e inclusão presentes no Currículo da Cidade. 

Pesquisa que ultrapassa a universidade 

Para Renata, o reconhecimento está relacionado a uma trajetória que articula pesquisa acadêmica, gestão escolar e formação continuada de professoras da Educação Infantil. Os referenciais estudados durante o mestrado continuam presentes em sua atuação como diretora e nos processos formativos desenvolvidos na unidade educacional, especialmente por meio do Projeto Especial de Ação (PEA). “Sua relação com a minha prática profissional não é apenas uma aproximação entre teoria e prática: é um movimento de práxis, no qual a experiência, a reflexão teórica e a ação educativa se retroalimentam”, explica. 

A partir dos estudos, a diretora busca promover espaços de escuta, reflexão crítica e construção coletiva do conhecimento, valorizando as experiências das professoras e a participação das crianças. “As experiências das professoras deixam de ser consideradas apenas exemplos de práticas e, a partir da elaboração crítica, se constituem como epistemologias pedagógicas”, afirma. 

Dessa forma, a pesquisa ganha continuidade no cotidiano escolar e passa a dialogar diretamente com os processos de formação e com as práticas pedagógicas desenvolvidas na unidade. 

O trabalho de Renata também evidencia a possibilidade de aproximar a produção acadêmica das práticas realizadas nas escolas públicas. Ao levar para a gestão escolar questões discutidas durante a pesquisa, a professora transforma os conhecimentos produzidos no mestrado em referências para pensar a formação docente, as relações de poder e a construção de uma educação mais democrática e inclusiva. 

Reconhecimento internacional 

A homenagem ocorreu no dia 23 de julho, durante a programação da IV ALARI Conference, em Cali. O encontro foi organizado pelo Afro-Latin American Research Institute (ALARI), da Universidade Harvard, pelo University Consortium on Afro-Latin American Studies e pelo Center for Afrodiasporic Studies (CEAF), da Universidad Icesi. A conferência reuniu mais de 1.500 participantes e contemplou diferentes áreas dos Estudos Afro-Latino-Americanos, incluindo educação, desigualdades, movimentos e resistências, antirracismo, políticas públicas e representação. 

O Prêmio Intelectualidade Amefricana – Edição Inaugural reconhece trajetórias de mulheres negras relacionadas à produção intelectual, à atuação pedagógica e ao compromisso com a justiça social, racial e epistêmica. 

Para Renata, o reconhecimento também representa a valorização do trabalho desenvolvido na escola pública e da produção de conhecimento realizada por profissionais que atuam diretamente na Educação. A pesquisa desenvolvida na pós-graduação passa, assim, a integrar uma trajetória profissional que conecta formação acadêmica, gestão escolar e transformação das práticas educativas. “Para mim, não existe educação antirracista sem a garantia dos direitos de aprendizagem”, conclui. 

IV ALARI Conference 

A IV ALARI Conference é a quarta edição da Conferência Continental de Estudos Afro-Latino-Americanos. A edição de 2026 foi realizada de 22 a 24 de julho, pelo Afro-Latin American Research Institute (ALARI), ligado ao Hutchins Center for African and African American Research da Universidade Harvard, em parceria com o University Consortium on Afro-Latin American Studies e o Center for Afrodiasporic Studies da Universidad Icesi. 

O encontro reúne pesquisadores, estudantes, educadores, ativistas, artistas, gestores públicos e outros profissionais interessados nas experiências e nos estudos relacionados às populações afrodescendentes na América Latina. A programação contemplou temas como educação e ações afirmativas, desigualdades, movimentos e resistências, antirracismo, políticas públicas, literatura, saúde, cultura e relações afroindígenas. 

Rede Internacional de Pedagogia Feminista Negra 

A Rede Internacional de Pedagogia Feminista Negra é apresentada como uma articulação de pesquisadoras, educadoras e intelectuais voltada à produção de conhecimentos e práticas pedagógicas relacionadas às perspectivas negras, feministas e decoloniais.  

A Rede surgiu em 2023, a partir de discussões iniciadas em 2022 e a publicação do livro Pedagogia Feminista Negra, primeiras aproximações. A rede busca fortalecer o diálogo entre diferentes espaços de produção de conhecimento e práticas educativas, valorizando as experiências como critério de cientificidade e evidenciando a contribuição teórica e metodológica das mulheres negras no campo da Educação. 

Sobre a pesquisa 

A dissertação “Ensinando a transgredir: bell hooks e a experiência de professoras negras na construção de pedagogias feministas negras” foi defendida por Renata Marques dos Santos Pereira em 2023, no Mestrado Profissional em Educação Escolar da Faculdade de Educação da Unicamp. O trabalho tem 133 páginas e está disponível em acesso aberto no repositório da universidade. 

A pesquisa também foi apresentada no XIII Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as (COPENE), no qual Renata descreveu o estudo como uma investigação sobre as relações entre as experiências de mulheres negras e suas práticas pedagógicas nas escolas públicas da Rede Municipal de Educação de São Paulo. 

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