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Talento do xadrez desponta no CEU EMEF Vila do Sol

Estudante da Rede Municipal de Ensino, enxadrista de 11 anos se destaca em competições oficiais e projeta voos mais altos no esporte

Publicado em: 02/02/2026 10h01 | Atualizado em: 02/02/2026

O primeiro contato de Ana Júlia Cândido Vieira com o xadrez aconteceu por acaso. Tinha apenas 8 anos, cursava o 3º ano do Ensino Fundamental no CEU EMEF Vila do Sol, extremo sul da capital, e seguia para mais uma aula de Educação Física quando a chuva mudou os planos. Em vez da quadra, o professor Haroldo Wonsowski apresentou aos estudantes alguns jogos de tabuleiro, como o xadrez. Bastaram poucos movimentos para que Ana Júlia se apaixonasse. 

O que chamou sua atenção não foram apenas as peças, mas a complexidade por trás de cada jogada: as estratégias, as táticas, o raciocínio até o tão esperado xeque-mate. Competitiva por natureza, logo percebeu que aquele tabuleiro de 64 casas poderia se transformar em um caminho sem volta e limites. 

Hoje, aos 11 anos, a estudante do 6º ano da Rede Municipal é considerada um prodígio do xadrez. Dedicada e extremamente disciplinada, não imaginava chegar tão longe, muito menos vencer torneios importantes. Um dos mais marcantes foi o Campeonato Municipal de 2023, competição conhecida pelo alto nível e grau de dificuldade. Ana perdeu uma rodada, ficou sem adversários em outra, mas seguiu firme até conquistar o título. Uma vitória que simbolizou mais do que um troféu. 

“Quando a Ana começou no projeto de xadrez com o apoio e incentivo do professor Haroldo, eu jamais imaginei que chegaria tão longe em pouco tempo. Com apenas cinco meses de treino, já foi campeã do Municipal. Em dez anos de projeto, nunca tinha existido uma vencedora da periferia. Hoje, posso dizer que a vida dela é o xadrez. Ela respira isso todos os dias, acorda pensando em jogadas e dorme estudando partidas. E essa paixão acabou envolvendo toda a família”, destaca a mãe, Cíntia Patrícia Cândido dos Santos. 

São cerca de três horas de treino por dia, alternando partidas online, exercícios táticos no tabuleiro, estudos de linhas de abertura e partidas rápidas (blitz). Treina 90% do tempo sozinha, com os irmãos mais novos — que também já participam de campeonatos —, com a mãe e sob orientação do professor Haroldo, a quem hoje auxilia nas aulas do projeto de xadrez da escola.  

O computador usado nos treinos online foi doado por uma igreja, mais um exemplo de como a comunidade se mobiliza em torno do talento da menina. Atualmente, Ana Júlia já alcançou o nível de Mestre Nacional, uma categoria considerada de alta performance no xadrez e reservada a atletas que se destacam em competições oficiais.  

A evolução dos atletas acontece por meio de níveis e títulos oficiais, conquistados de acordo com a participação e o desempenho em torneios reconhecidos pelas federações. Entre eles, estão categorias como Mestre Nacional, Mestre Internacional e, no topo da carreira, o cobiçado título de Grande Mestre (GM) — o maior sonho da competidora. No entanto, essa progressão exige presença constante em campeonatos, muitos deles com custos elevados de inscrição, viagem e hospedagem, o que se torna um obstáculo real para uma família que enfrenta dificuldades financeiras. 

Mesmo assim, Ana Júlia segue avançando. É bicampeã do Paulista Escolar, bicampeã da Diretoria Regional de Educação (DRE) Campo Limpo, campeã da Final Municipal da Rede Municipal de Ensino (RME), campeã Paulista Juvenil Sub-20 e participou de competições fora do estado, como o campeonato da FENAJ, em Santa Catarina, em 2025. A partida mais longa que disputou durou impressionantes 3 horas e 40 minutos, uma verdadeira maratona de concentração. 

Única representante da periferia em muitos torneios, inspira não apenas a família — hoje profundamente influenciada por ela —, mas também colegas e professores. Confiante, já projeta o futuro. “Neste ano, o bicampeonato do Municipal será meu”, reforça. Mais do que títulos, ela sonha alto. “Quero me tornar a melhor do mundo e alcançar o posto de Grande Mestre”, reforça. 

Fã de Magnus Carlsen, pelo jogo sólido e criativo, admira também Garry Kasparov e a lenda do xadrez Bobby Fischer. No tabuleiro, cada jogada carrega estudo, disciplina e coragem. Fora dele, Ana Júlia carrega uma história que prova que o talento pode surgir em qualquer lugar e que, com esforço e apoio, é possível dar xeque-mate nas dificuldades e transformar sonhos em realidade. 

De acordo com Ana Cristina Lima Alves, gestora do CEU Vila do Sol, a Ana Júlia é uma estudante extremamente dedicada em tudo o que faz, mas o xadrez, sem dúvida, será um divisor de águas na vida dela. “Ela mostra que, quando existe oportunidade aliada ao esforço, o talento floresce. A trajetória dela inspira não só outros alunos, mas toda a comunidade escolar. A escola tem um papel fundamental em abrir caminhos, seja por meio do teatro, da música ou do esporte. O xadrez tem sido uma dessas grandes portas”, conclui a gestora. 

 Conheça mais sobre o programa Jogos de Tabuleiro na Rede Municipal 

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