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Projeto em escola infantil leva o espanhol às culturas migrantes 

A iniciativa fortalece a comunicação, amplia o repertório cultural e impacta positivamente o desenvolvimento das crianças 

Publicado em: 17/04/2026 14h46 | Atualizado em: 17/04/2026
Vista superior de várias crianças reunidas em círculo, com os punhos encostados no centro. Em cada mão há um desenho simples de coração feito com caneta, simbolizando união e afeto. As crianças usam roupas casuais e estão próximas umas das outras, formando uma composição que transmite coletividade, amizade e colaboração.

O CEI Espaço Kairós, unidade localizada no Bom Retiro e pertencente à DRE Ipiranga, tem transformado o cotidiano de educadoras e crianças ao integrar o ensino de espanhol com a valorização das culturas migrantes. Mais do que um projeto de idioma, a iniciativa Los Niños nasceu com o objetivo de fortalecer a comunicação e promover o reconhecimento da diversidade cultural presente na comunidade escolar. 

Atualmente, a unidade atende 139 crianças no total. Desse total, 17 crianças são migrantes, sendo 10 da Bolívia, 3 de Angola, 3 de Marrocos e 1 da Venezuela. Outras 42 são filhas de migrantes, com destaque para a Bolívia (21), seguida por Paraguai (8), Angola (5), Venezuela (3), Peru (2), além de Marrocos, África do Sul e Tunísia, com 1 criança cada. As demais 81 crianças são brasileiras, compondo um cenário educativo marcado pela pluralidade de origens e experiências culturais. 

A ideia surgiu a partir da escuta e da experiência de uma educadora filha de bolivianos, que compartilhou os desafios vividos durante sua trajetória como aluna na rede pública. “Eu cresci na Bolívia e vivi muito dessa cultura. Sei o quanto as famílias enfrentam dificuldades, principalmente com a língua. Tenho muito a compartilhar, tanto da cultura quanto das experiências”, relata a educadora Nadia Cleyde Ramos Moya, idealizadora do projeto Los Niños. 

A proposta ganhou força e passou a integrar diferentes dimensões da rotina escolar, como formações pedagógicas, reuniões, projetos e até momentos relacionados à alimentação. A proposta parte do princípio de que o aprendizado, tanto de crianças quanto de adultos, acontece de forma mais significativa por meio de experiências práticas, lúdicas e contextualizadas. 

“A partir dessa vivência, construímos juntos um projeto que não é apenas de língua, mas de comunicação e cultura”, explica o gestor do CEI Espaço Kairós, Eduardo Arantes, que atua na unidade desde 2015.  

Segundo ele, o diferencial está na forma como o aprendizado é incorporado ao dia a dia da unidade, de maneira prática e significativa. “Os educadores aprendem fazendo, falando, cantando, pesquisando. Só faz sentido quando se torna prática pedagógica”, completa. 

Impactos no desenvolvimento e na comunidade 

Os resultados já são percebidos no dia a dia da unidade. Segundo o gestor, as crianças passaram a se expressar mais e a se comunicar com maior segurança com os educadores. As famílias também se aproximaram da escola e passaram a participar mais ativamente.

Um exemplo desse envolvimento é o da própria idealizadora, que é mãe de um aluno da unidade e decidiu mudar de profissão a partir da experiência com a iniciativa. 

O projeto despertou o interesse das professoras para além dos muros da escola. Muitas passaram a buscar referências culturais de forma autônoma, como visitas à feira boliviana no bairro do Brás, além de sugerirem novas ações pedagógicas relacionadas ao tema. 

Educação multicultural desde a infância 

Embora tenha começado com foco na cultura boliviana, o projeto se expandiu e hoje contempla diferentes nacionalidades presentes na comunidade escolar. “Na sua maioria são famílias latino-americanas, mas temos crianças de diversas origens. O projeto se tornou multicultural”, afirma Arantes. 

Elementos como música, alimentação, brincadeiras e tradições são incorporados às práticas pedagógicas, sempre a partir da escuta das crianças e das famílias. 

Para a educadora Nadia, a iniciativa também representa uma oportunidade de compartilhar vivências e contribuir com a formação das professoras. Ela destaca que uma das maiores dificuldades enfrentadas por migrantes é a escrita em português, o que muitas vezes limita oportunidades profissionais. Sua trajetória inclui idas e vindas entre Brasil e Bolívia até se estabelecer definitivamente em São Paulo, em 2012. 

Referência em acolhimento e inclusão 

A experiência do CEI Espaço Kairós já se tornou referência em educação infantil para crianças filhas de migrantes, sendo reconhecida pela comunidade escolar e ganhando visibilidade em nível nacional. 

Para o gestor, iniciativas como essa reforçam o papel da escola como espaço de transformação social. “Quando as crianças estão bem acolhidas, todos ganham. A escola precisa reconhecer as diferenças como ponto de partida para superar desigualdades”, afirma. 

Ele também ressalta que projetos inovadores surgem do envolvimento da própria comunidade escolar. “Os grandes projetos da educação estão nas pessoas — professores, gestores, famílias e alunos. São eles que conhecem o território e podem promover mudanças reais.” 

Sobre o projeto 

Los Niños reafirma a importância de práticas pedagógicas baseadas no diálogo, no respeito e na valorização das culturas dos alunos. Ao integrar idioma, identidade e pertencimento, a iniciativa contribui para a construção de uma educação mais inclusiva, plural e conectada com a realidade dos estudantes. 

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