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Crianças da EMEI Nelson Mandela aprendem sobre diferentes manifestações do samba

Projeto selecionado pela comissão do Prêmio Educador Nota 10 integra os 50 finalistas de 2019

Publicado em: 11/07/2019 17h58 | Atualizado em: 30/11/2020

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No dia 6 de julho, a Fundação Victor Civita, instituição responsável pelo prêmio Educador Nota 10, divulgou os 50 finalistas da 22ª edição – 2019, entre os projetos selecionados está o trabalho realizado pela Professora de Educação Infantil, Marina Basques Masella, realizado na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Nelson Mandela, da Diretoria Regional de Educação (DRE) Freguesia / Brasilândia, localizada no bairro do Limão, Zona Norte de São Paulo.

O projeto intitulado “Samba Samba Samba Ô Lêlê”, foi realizado no primeiro semestre de 2018, com uma turma de 30 crianças com idade entre 4 a 5 anos, e teve por objetivo ampliar e aprofundar os conhecimentos que as crianças já possuíam sobre o samba, atentando para as gestualidades presentes nessa prática corporal e identificando falas que perpetuam estereótipos de gênero, raça e etnia.

A escolha do tema de estudo samba se deu após identificar que a EMEI está localizada entre três importantes escolas de samba da região: Mocidade Alegre, Rosas de Ouro e Império da Casa Verde, espaços muito frequentados pelas famílias e crianças aos finais de semana e período de férias.

O trabalho também considerou o Projeto Político Pedagógico (PPP) da unidade, que apresenta como tema do Projeto Especial de Ação (PEA), o estudo de práticas promotoras para a equidade racial e de gênero, permeada pelos princípios e procedimentos didáticos do Currículo Cultural da Educação Física.

O projeto com duração aproximada de cinco meses aconteceu uma vez por semana, no território de aprendizagem da EMEI Nelson Mandela destinado a Cultura Corporal percorrendo as seguintes etapas:

Mapeamento – A professora deu início ao projeto fazendo um levantamento acerca dos conhecimentos que circulavam entre as crianças referentes a essa prática corporal, perguntando a elas o que sabiam sobre o samba e em quais locais poderiam sambar.

Vivência corporal com música – Em seguida, foi proposta uma vivência a fim de continuar investigando os significados que as crianças atribuíam a essa prática corporal. Para isso, a professora Marina utilizou uma playlist musical intitulada “Samba de raiz”, e disponibilizou uma caixa de som para as crianças dançarem durante um determinado tempo.

Pesquisa – Por não possuir muita experiência com a prática corporal tematizada, Marina buscou aprofundar os seus conhecimentos sobre o samba realizando a leitura de dois livros: “Uma história do Samba – as origens de Lira Neto” e “Dicionário da história social do Samba” de Nei Lopes e Luiz Antônio Simas. Além desta iniciativa, a professora assistiu vídeos na internet e conversou com amigos e amigas que frequentam escolas e rodas de samba de diferentes formatos e em distintas localidades na Cidade de São Paulo.

Contação de histórias – Após realização de pesquisa, Marina elaborou uma contação de histórias para as crianças, procurando construir com elas o percurso e a história do samba no Brasil. A turma se dirigiu ao gramado da escola, fizeram uma roda e utilizando mapas, tecidos, fantoches e brinquedos como recursos, puderam ouvir a narração da professora sobre a condição da chegada dos negros africanos no Brasil, a origem do samba na Bahia pela mistura dos ritmos musicais, o samba de umbigada, a migração de uma parcela dessa população para o Rio de Janeiro se desenvolvendo, o samba carioca em um espaço chamado por eles de “Pequena África”, os primeiros instrumentos musicais e a figura de Tia Ciata. As crianças participaram ativamente da contação, com falas e contribuições.

Vivência com instrumentos musicais – Quando Marina comentou sobre alguns instrumentos musicais que compõem as músicas de samba como o ganzá e o reco-reco, muitas crianças disseram não conhecer. Partindo desse pressuposto, a professora entrou em contato com a Coordenadora Pedagógica da unidade, Solange Miranda, por ser instrumentista em um grupo de Maracatu, solicitou sua ajuda para trazer os instrumentos mencionados para mostrar as crianças. Desta forma, foi proposta uma vivência para as crianças tocarem e descobrirem o som que cada instrumento produzia.

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Bate-papo e vivência com sambista – Visando o acesso a outros discursos e fontes diferentes das já utilizadas até então, a professora Marina obteve contato com Kleber, sambista de um grupo amador chamado “Descontrole”, e o convidou para ir até a escola conversar com a turma sobre a sua relação com o samba. As crianças ficaram animadas e com a ajuda da professora elaboraram perguntas para a conversa: Como você conheceu o samba? Quais instrumentos você sabe tocar? Você dança também? Do que você brincava quando era criança?.

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No dia da visita, Kleber retomou com as crianças alguns aspectos da história do samba e contou a elas sua história de vida. O Sambista também levou seu cavaquinho, explicou um pouco sobre o instrumento e propôs uma roda de samba. As crianças dançaram, cantaram trechos de sambas ensinados pelo músico, perguntaram sobre as roupas utilizadas nos shows, e por fim, pediram para segurar seu cavaquinho e cantar “Samba, samba, samba o Lelê”.

Análise crítica da mídia – Procurando aprofundar os conhecimentos sobre a prática corporal estudada e problematizar algumas questões levantadas pelas crianças, a professora Marina levou a turma para a sala multimídia da escola para projetar algumas imagens e conversar. “Levei imagens de passistas de escola de samba, de homens e mulheres se arrumando para o desfile, de grupos de samba compostos apenas por mulheres, grupos compostos por homens e mulheres e de sambas de roda do recôncavo baiano. Em cada uma delas, parávamos para conversar sobre nossas impressões”, observa Marina.

Foi levantada para as crianças a questão da passista estar com pouca roupa, se elas viam algum problema nesse fato. Uma menina falou: “Quando a gente vai na praia, também usa roupas parecidas com elas, só que sem o brilho e a maquiagem”, fala que foi complementada por outra menina que disse: “Igual quando tá calor e a gente tira a blusa no parque”. Nesse momento falou-se sobre a importância de sempre respeitar o corpo da outra pessoa, esteja ela com muita ou com pouca roupa.

Foi falado também dos desfiles das escolas de samba ou as diversas rodas de samba existentes, momentos de festa, de celebração e que as pessoas se arrumam, se vestem e se maquiam de diferentes formas para esse momento e o importante era a pessoa se sentir bem com o jeito que está vestida ou maquiada, independente do gênero.

Exibição da peça “Bento Batuca” – Algumas semanas depois, a escola recebeu o convite para assistir gratuitamente a peça “Bento Batuca”, em cartaz por dois finais de semana no Teatro Jaraguá.

O texto narra a história de Bento, um menino que batuca em tudo e em qualquer lugar desde que nasceu e que ao receber uma notícia que vira a sua vida de ponta-cabeça, parte em uma viagem a procura da batida do seu coração, passando pela Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro e mergulhando na Capoeira, no Frevo, no Maculelê e no Samba, reencontrando suas origens.

A ida até a peça era mais uma oportunidade de ampliação dos conhecimentos da turma. As crianças aproveitaram o espetáculo e quando o personagem Bento estava mergulhando na história do samba, apareceu à personagem da Tia Ciata e nesse momento muitas crianças viraram a cabeça na direção da professora dizendo: “É a Tia Ciata, prô! É a Tia Ciata!”.

As crianças que foram ao teatro receberam a tarefa de contar para as que não puderam ir um pouco sobre a história e as sensações que tiveram. A peça tinha uma banda ao vivo e as crianças falaram sobre os instrumentos, características dos personagens e a viagem realizada por Bento, citando a Tia Ciata e as roupas que estava vestida.

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Conversa sobre preconceito – A professora aproveitou o momento para contar às crianças que por algum tempo as práticas corporais retratadas pela peça eram proibidas, que as pessoas que as praticavam tinham que fazer isso escondidas e questionou se elas sabiam o porquê desse cenário. Um menino disse: “Acho que tinham pessoas que não gostavam do barulho que eles faziam”. Outra menina falou: “Acho que já sei, prô! Era porque eles eram negros né? As pessoas que dançavam? Aí teve um apartheid igual o do Nelson Mandela na África do Sul!”. As crianças estavam estudando a vida de Nelson Mandela nesse período e o apartheid era pauta das investigações da turma, possibilitando essa associação. Conversaram que apesar de isso ter acontecido há muito tempo, até hoje os negros sofrem racismo e muitas das suas práticas são tratadas com preconceito.

Vídeos e Vivências no Samba de umbigada – No ano de 2017, as crianças tiveram algumas oficinas de capoeira e samba de umbigada, por conta disso, surgiram comentários durante as vivências. Após observar esse fato, a professora Marina decidiu adentrar nessa modalidade para contemplar a fala das crianças que já estudavam na escola o ano passado e também as crianças novas. Para isso, foram novamente até a sala multimídia para assistir dois vídeos: a entrevista com uma mulher negra contando brevemente sobre a história e alguns aspectos do samba de umbigada do recôncavo baiano e outro que mostrava homens e mulheres em uma roda de samba. Marina pediu para que as crianças que já estudavam na escola explicassem para as demais o que já sabiam sobre o samba de umbigada, elas fizeram uma pequena demonstração, executando movimentos da umbigada e dizendo para que servia.

Após esse momento, as crianças partiram para as vivências. A escola possui cerca de 20 saias modelo três Marias que são utilizadas nos eventos culturais e apresentações das crianças e alguns instrumentos musicais a disposição das professoras. Utilizaram esses materiais e também a caixa de som com o álbum “O Recôncavo Baiano em Samba de Roda”, do grupo Filhos de Nagô. Houve um combinado com a turma de que como não havia saias e instrumentos em número suficiente para todos, fariam revezamento. Na primeira vivência, todas as meninas optaram pela saia e os meninos disputaram a todo tempo os instrumentos, uma vez que não tinham muitos e alguns ficaram sem.

No segundo momento, fizeram o mesmo combinado de revezar as saias e instrumentos, a professora reiterou novamente que meninos e meninas poderiam optar por vestir ou tocar o que desejassem. Dessa vez, um menino quis experimentar a saia, fez alguns giros com ela, mas logo foi escolher um instrumento. Algumas meninas não quiseram colocar a saia e optaram apenas pelos instrumentos e outras usaram saias e tocaram instrumentos ao mesmo tempo, criando o próprio jeito de sambar.

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Registro – Foi realizado um registro dessas vivências no portfólio individual das crianças (caderno grande de desenho), surgiram desenhos de saias ressaltando suas estampas, meninos e meninas dançando e usando instrumentos, além do gesto da umbigada. Durante todo o trabalho, as fotografias e os vídeos também foram formas de registro, que auxiliou a turma a desenhar todo o percurso vivido e também a planejar as próximas ações didáticas que seriam feitas.

Conhecendo a Rosas de Ouro – A turma visitou a sala multimídia novamente, desta vez para visualizar imagem de satélite do Bairro do Limão, localizando a escola e a quadra da escola de samba Rosas de Ouro. Assistiram a um vídeo que mostrava a bandeira da escola explicando seu significado, um ensaio acontecendo na quadra da escola e imagens de um desfile no sambódromo onde as crianças puderam analisar a comissão de frente, o abre-alas e a porta-bandeira, os carros alegóricos, a rainha da bateria, a bateria e o samba-enredo da escola. Não conseguiram ir até a quadra da escola de samba, mas na festa realizada pela escola no mês de agosto que reuniu toda a comunidade escolar, conseguiram que a bateria mirim da Rosas de Ouro viesse fazer uma apresentação interativa para as crianças e famílias, que se envolveram cantando, dançando e sambando.

Impressões – Para professora Marina Basques, as discussões e vivências extrapolaram o período de dedicação a esse estudo, uma vez que as crianças se juntam para fazer rodas de samba no parque, pegam o lixo da sala e materiais não estruturados para batucar e sempre pedem para colocar músicas de samba. Outro efeito interessante observado por Marina recentemente foi durante a copa do mundo, em que vários meninos quiseram fazer maquiagem do Brasil no rosto e até mesmo passaram batom verde.

“Acredito que tudo o que vivemos durante o estudo do samba contribuiu para aprofundarmos nossos conhecimentos sobre essa prática e ampliar os significados que já tínhamos sobre ela, tocando em diversas questões que dão sentido ao projeto da escola e o tornam vivo, validando a luta de cada professora e membro da equipe EMEI Nelson Mandela por uma sociedade menos desigual”, relata Marina.

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